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domingo, 27 de maio de 2012

Tchau, vô!

Foram quase 20 anos de convivência diária. O vô era o responsável por cumprir tarefas essenciais na casa: comprar água, pagar a conta da água, fazer as vontades da neta quando ela choramingava.
O vô comprava o pão quente e a coca-cola gelada pra quando chegasse da pré-escola tivesse o que comer assistindo Castelo Rá-tim-bum e Carrossel. O vô adorava Carrossel.
- Mariaaaaaanaaaaaa começou!, era o que era dito.

A Mariana, que há bem pouco ainda se chamava de "Maiana" ia correndo com o urso do Baby, da Família dos Dinossauros, debaixo do braço. Era inexplicável a sensação de assistir Carrossel com o vô.



Mariana virou Mari. Vieram as Caprichos. Os sorvetes de sabor Chiclete viraram Chicabons. Crédito pra celular, a nova sandália Melissa. O vô resmungava, mas patrocinava.

Começaram as tarefas: 
- Vá buscar o jornal de domingo logo agora à noite!
- Vá comprar leite em caixa que tá em promoção.
- Compre banana que a minha já acabou.
...

A mais chata delas era pôr colírio. Eu não entendia porquê o vô tinha que pôr colírio toda hora! E porque ele sempre fechava o olho na hora que, finalmente, a gota caia. 

O vô se foi quando eu realizava um sonho.
Pós-primeiro dos três dias de Rock in Rio que tínhamos comprado, o vô, o Rei da Saúde da casa, teve um AVC e foi pro hospital onde poucos dias depois morreu.

O vô não viu que Carrossel teria uma nova versão com a Maysa, aquela garota assustada "a beça" pelo "camarada" do SBT.
O vô não viu que agora quem precisa pôr colírio toda a hora no olho sou eu e eu não consigo manter os olhos arregalados por mais de 2 segundos.

E, quase um ano depois, é essa a minha forma de dizer: tchau, vô.


terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Homem de Lata

Há anos aderimos a reciclagem aqui em casa. Separamos papéis, plásticos, vidros, ôrganicos e colocamos na porta de casa as segundas-feiras quando o carro da prefeitura leva para os coletores registrados. Deixamos de pegar sacolas plásticas à-toa também. Somente quando for extritamente necessário. Aderimos as sacolas de pano para compras, separamos as pilhas e levamos aos papa-pilhas da cidade. Virou hábito.
No meu bairro há uma Associação de Catadores de Lixo Reciclável. Eles passam o dia inteiro dentro de uma casinha feita de metal esperando os grã-finos e afins levarem seus lixos. Confesso nunca ter visto nenhum pôr lixo lá, mas se existe até hoje é porque funciona.
O que é curioso é que além dos "oficiais" há os "extras", pessoas que perambulam pelo bairro atrás de latinhas, como é o caso do sr. Homem da Lata.
Ele é um velinho, de uns aproximadamente 76 anos, com boné na cabeça, blusa estilo machão, chinelo e veias pulsantes. Sempre o vejo com uma sacola lotada de latinhas, carregando com muito pesar nas costas. Dá um dó. Toda vez que eu o vejo tenho vontade de perguntar Quer ajuda seu Homem da Lata?, mas sinto que se eu tratá-lo assim aquele saco cheio de metal vai parar na minha cabeça e eu, consequentemente, no chão.
De um modo que eu não sei explicar, meu avô conheceu o velinho. Não sei se meu avô sentiu-se mal por passar o dia lendo jornais e revista, ouvindo rádio e vendo tv.. deitadinho em sua caminha confortável, mas eis que ofereceu as nossas latinhas para aquele sr. E desde lá, com certa frequência vimos o velho da Lata também aqui em casa.
O estranho é que quando tô na rua e cruzo com ele, ele faz A egipscia! é tipo:(sorriso) Oi seu.. PÁ cara virada e vruuum vruuuum ventão na minha cara! Obrigada por me ignorar sr Homem da Lata.
Já quando eu tô na minha, olhando pra baixo, pensando no que vai passar no Faustão o velinho surge na minha frente e diz: Oi minha fiiilha! Cadê seu avô? Tá tudo bem com ele? Diz que eu mandei um abração pra todo mundo!
Sinceramente eu não sei qual é o problema do seu Homem da Lata comigo. Talvez seja o sol na cuca do coitado, ou as latinhas pesadas demais e minha falta de coragem de oferecer ajuda, talvez ele seja bipolar e trabalhe como executivo de uma multinacional ou melhoooor, talvez ele seja rico e esteja se fingindo de pobre pra conquistar outra catadora de lixo que nem aqueles personagens da novela das 7.
Tudo é possivel.
A única coisa que não deveria ser possivel é ele tocar a campanhia desesperadamente (dingdong dingdong dingdong... dingdong dingdongdingdongdingdongdingdongdingdong!!!!) as SETE da manhã em pleno fériado de Carnaval!
Talvez seja nesse momento em que eu abro a porta com a cara de quem vai levá-lo ao sacrificio, que aumenta a raiva dele por mim..
Mas pô seu Homem da Lata, visite-nos no horário comercial né? vamos combinar! Assim o sr pode sentar, tomar um cafezinho e me contar todo seu mistério.. Se o sr quiser, claro.

(vovô arrumando as latas)